domingo, 22 de novembro de 2009

Enigma


Os lábios que ardiam
Ressonam sons de órgãos
Brancos, sábios e que sabiam

Que nada seria
Para sempre o mesmo
Som e a mesma batida

Nas portas, os rastros.
Nos telhados, as sobras.
Na boca, a falta.
No outro lado do poema vestígios que vão sendo

a p a g a d o s

pelo

T
E
M
P
O
.
.
.

15 de Novembro de 2009

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Sophia

Ela atravessou correndo a ponte da entrada da cidade. Tinha esperanças nos bolsos rasgados e um meio sorriso guardado para quando pudesse finalmente descansar. Seus pés estavam pretos da poeira e de toda sujeira do asfalto que grudara enquanto ela percorria todo o caminho.
Estava terrivelmente cansada, mas tinha forças. Tinha esperança de que alguém naquela cidade pudesse vê-la, pudesse ajudá-la. Ela queria uma boa alma e uma boa mente que a socorre-se.
Nem sabia mais há quanto tempo ela estava correndo pelo mundo. Só sabia que um dia acordou e ninguém mais a viu. Achou que tinha morrido e era um fantasma. Mas não atravessava coisas. Conseguia esbarra nas pessoas, mas todos a olhavam como quem olha um vidro translúcido apenas como algo que o separa do que quer ver mais a frente. Idéia boba essa de fantasma, mas o que você pensaria?
Estava terminando de atravessar a ponte, quando viu do outro lado um rapaz que ameaçava se jogar. Ele queria pôr fim a vida e ela não entendeu porque. Enquanto ele queria se matar, ela desejava, com toda a força restante em seus músculos retorcidos, desejava viver, e ele queria morrer, tudo que ela queria era poder ter a certeza de que estava viva. Correu até o outro lado e tentou convencê-lo a não pular. Mas sua voz não saiu. Ficou desesperada. Empurrava e batia no rapaz com toda pouca força que tinha, mas nada adiantava, como os outros, ele nem percebeu sua presença. Ela esforçou-se para gritar e alguns sons guturais conseguiram sair meio abafados. Foi então que ele a percebeu.

- Moça, não adianta. Vou me matar. Sou tratado como louco dentro dessa cidade. Todos tem medo de mim, ninguém se aproxima. Sei que o que faço é o melhor, não só pra mim, mas para todos. Não faço falta aqui.

Ela esforçou-se mais um pouco e conseguiu falar “ajude-me, por favor!”.

- Ajudá-la? Não vê que estou tentando me matar? Você é quem deveria me ajudar. Olhe moça, quem a vê bela assim, nunca imagina o quão egoísta é tua beleza. Eu aqui, tentando me matar e a senhorita só pensa em si.

Sophia não soube o que e não tinha mais como falar.
Ficaram se olhando por um tempo e o rapaz decidiu se jogar. Jogou-se. E Sophia apenas olhou. Não tinha forças para segurá-lo. Então tentou correr novamente.
O esforço e o cansaço de toda a viagem não a deixaram perceber que tinha arranhões e cortes pelo corpo inteiro, alguns já até cicatrizados, pois a viagem que Sophia fazia já durava tanto tempo que nem ela era mais capaz de se lembrar. Mas outros cortes eram recentes e ainda jorravam sangue. E como doíam. Parecia que mil facas quentes, em brava atravessavam sua pele e retorciam-se embaixo dos músculos. Pobre menina. Seu corpo estava esfriando, exceto os cortes que ardiam como se o sangue que brotava de sua derme fosse lava incandescente.
Saiu da ponte e correu pela cidade. Viu uma igreja e pensou que ali alguém fosse ajudá-la. Bateu nas portas e gritou, agora parecia que sua voz reavivara-se na garganta. Mas ninguém saiu. Talvez ninguém estivesse ouvindo e aquele rapaz na ponte fosse apenas uma miragem causada pela dor lacerante que sentia.
Era por volta das cinco horas da tarde e a luz do Sol começava a dizer adeus mais uma vez à Sophia. Quanto tormento. O astro rei não era mais capaz de agüentar. Que imagem aborrecidamente romântica... retiro o que disse.
Em frente a igreja havia um ponto de ônibus. Mas estava vazio. Ficou ali por um tempo vendo a beleza da árvore que dava sombra ao ponto. Era bela. Robusta e gigantesca. Tinha folhas grandes e aconchegantes. Seus galhos eram imensos e acolhiam com carinho os ninhos dos pássaros assustados com o barulho dos carros que possivelmente deveriam passar por ali. Mas hoje não. A cidade parecia deserta. Vejam que menina mais tola, o sangue jorra-lhe pela pele como um vulcão enfurecido, e ela lá, boba a contemplar pássaros tristes.
Sophia continuou a andar e viu algumas casas. Eram antigas e pareciam guardar espíritos e ossadas em suas paredes. As casas suspiravam temores, amores, dissabores, horrores e quantos mais ores você seja capaz de pensar. Mas a dor de seus braços a acordaram de seu sonho de compaixão. Percebeu nesse momento, que um deles estava quebrado. E sentiu mais dor quando seu cérebro associou o osso fraturado à idéia de anormalidade em sua estrutura física. A dor queria avisá-la que algo estava errado e gritava para que Sophia percebesse. Mal sabia ela que Sophia já havia percebido. Mas dores não tem consciência. As vezes acho que as dores são românticas. Só precisam ser sentidas, nem se importam com o resto do mundo. Tese tola, eu sei.
Sophia tentou não ligar para o sinal que seu corpo emitia e continuar. Continuou. Subiu ladeiras e encontrou outra área residencial e só agora percebeu que não bateu na porta das outras casas que encontrara por que a dor em seu braço desviou sua atenção. Bateu nas portas dessas, nas janelas. Gritou. Esqueceu das dores. Mas ninguém a viu, ninguém a ouviu. Sophia desesperava-se mais uma vez. Viu que tudo a sua volta ficava vermelho e achou que fosse o crepúsculo. Mas não era. Seu olho sangrava e tingia tudo a sua volta com um rubro agoniante de fênix que morre e renasce de sua própria dor. Desesperou-se mais uma vez. Não gostava da cor ardente do vermelho e lembrou-se de seu braço quebrado, de seu sangue fervente e das facas rodopiantes embaixo dos músculos. Sophia gritou tão alto que a cidade inteira estremeceu.
Continuou correndo pela cidade. E em todos os cantos gritava, chorava e sentia dor. Mas ninguém a ouvia e agora começava a desconfiar de que a cidade estivesse vazia. Que menina tola. Só agora é que percebe algo tão obvio. Mas lembrou-se das primeiras casas que a dor não a havia deixado pedir ajuda. Voltou. Mancando, pois seu pé direito já estava cortado. Chegou até as casas, mas foi em vão. Ninguém ali. Sophia deitou-se no chão, cansada, e começou a olhar as estrelas. Já era noite. Tentou descobrir por que tudo aquilo acontecia com ela. Porque com ela? Existem bilhões de pessoas no mundo... e agora pensava se mais alguém estaria passando por um momento tão estranho quanto o seu, mas logo decidiu que não. As pessoas são únicas, mesmo sendo donas da mesma essência, aqui, no mundo natural, cada um é cada um. E mesmo que isso acontecesse com mais alguém, talvez ela não as visse, então não teria como saber. Talvez milhões de pessoas estivessem ali “invisíveis aos olhos”. Ou talvez não. Enfim...
Só agora Sophia percebeu que sentia fome, não sede, apenas fome. Viu que ali perto de onde estava haviam algumas goiabeiras e achou estranho, bem no meio da cidade uma árvore frutífera. Mas respeitou a força com que aquele ser vivo se mantinha de pé ali, em meio a tanto concreto. Mas Sophia não tinha forças para subir na árvore e pegar uma fruta.
Depois de um tempo desiludida, decidiu continuar e ouviu um barulho. Identificou-o, era música. Existia alguém ali perto. Correu e encontrou um grupo de jovens que conversavam juntos. Aproximou-se. Não soube dizer de onde vinha a música. Tentou com cada um deles, mas assim como o resto do mundo, ninguém a viu. Então Sophia pensou, que talvez “eles falassem idiomas diferentes” e como Sophia conhecia grande parte, senão todos os idiomas do mundo, ela começou a pedir ajuda em todos os que lembrava-se. Mas foi inútil. Ninguém a viu ali. Sophia desesperou-se novamente e decidiu deixar aquela cidade cega ali. Decidiu continuar sozinha com sua dor-alarme, seu pé cortado, seu braço quebrado, seu sangue fervente e suas facas giratórias embaixo dos músculos. Sophia olhava para traz e sentiu-se abandonada. Sentiu-se sozinha no mundo mais uma vez e se perguntou “como podia alguém em um planeta com bilhões de habitantes sentir-se sozinha?!”. Mas sentia-se. E de fato, a única certeza que posso lhe dar é de que Sophia estava realmente sozinha, pelo menos não teria como ver outras pessoas invisíveis aos olhos e outra de minhas certezas é de que, no mundo inteiro, que cruzaria, ninguém, nenhum ser vivo, seria capaz de vê-la. Sophia estava sozinha.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A casa

"Quando criança eu tinha medo
De pessoas como nós"*
Que cortavam os próprios dedos
E tinham as línguas amarradas em nós,

Que viviam na casa
Rodeada por um muro de espelhos,
Cheia de vidros na faxada
E decorada com fios de cabelo,

Com janelas pintadas de amarelo
E paciência que escorriam
Pela moldura e pelos enfeites do 'castelo',
Ossos branco-leite, que tremiam.

A porta tinha pregos
Que prendiam na madeira
A música captada pelos espelhos
E o encosto de uma cadeira.

Produtos químicos espalhados
Pelo chão de toda mansão
Eram os únicos tipos de alimentos encontrados
No palco feito de restos de caixão

Ao qual a casa metaforizou-se.
A rede elétrica crescia na parede,
A casa engravidava-se,
Paria e emprenhava-se sempre.

Tinha todas as portas trancadas,
Exceto duas que estavam sempre abertas.
A porta de entrada da casa
E a do quarto onde se guardavam as armas.

No andar de cima, os suicídios
Eram emoldurados e pendurados
E o sangue dos assassínios
Era usado para pintar o chão furado.

O lugar perfeito para quem sonha morrer.
Todos os cantos eram pontudos
E na escada, com apoio para a mão correr,
Havia lâminas e ferros enferrujados.

E no jardim, pessoas, "uns brincando de viver"**
E todos vivendo sem sorrir,
Nenhum tenta correr,
Dali ninguém quer fugir.

E quando o dia amanhece,
Em meio ao cheiro de formol,
Toda a casa e as pessoas desaparecem
Exceto o filho do Sol
Em sua imortal desgraça, esquece
Que o veneno só o adormece
Até ser usada a próxima clave de sol.

*Música: Quarto das Armas
Banda: Pública
**Música: Como num filme sem um fim
Banda: Pública

Outubro de 2009

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Evolução

Hoje tenho livros na estante,
Ela está cheia deles,
Me ensinaram a ser bom comerciante
E vender bem os poderes,
Navalhas cortantes,
Desejos obstantes
E vários tipos de prazeres

Deveria ser o suficiente,
Deveria parecer que bastava,
Que não era contundente
As coisas que agora não mais desejava
Nesse presente influente
Que tanto me mente
Que tudo me faltava

A fenda no espaço-tempo
Me faz sentir menor,
Mas não me faz sentir por dentro
Um tanto pior,
Talvez seja porque tento
Me parecer um pouco menos lento
Que o resto a meu redor

Passei por dimensões
Conjugando os verbos,
Jogando nos latões
Das esquinas os termos certos
Cabiveis a todos os ladrões
Que roubam dos corações
O direito de serem eternos

Hoje é tudo no preterito
Bem mais que perfeito,
Trancado em paredes de concreto
Que é pra não surtir efeito
Quando eu estiver perto e querer me sentir inteiro
Enganado por um faceiro
Futuro esperto

Os dias se confundem
Brincando por aí
E antes que as coisas de novo mudem
E o eu de hoje comece a cair,
Como os seres evoluem,
Quero que as estações cheguem
E se espalhem por aqui

Quero comer de novo a rima,
Quero a prosa do passado
E quero o Sol que ilumina
O futuro atrasado,
Quero a involução que abomina
Pra parecer que é um pouco antiga
A vida que tenho levado...


Arthur Dantas



O post de hoje representa minha Evolução. Hoje completo 20 anos e não enxergo onde eles se escondem. Quero agradecer a todos os outros blogueiros que sempre passam por aqui pelo carinho. Vocês fazem parte desta comemoração. E eu estou um pouquinho cheio hoje, mas prometo que amanhã venho e comento no blog de todos. Muito obrigado.
P.S.: Aproveito também para fazer uma homenagem ao curso de letras da UFRN que exatamente hoje completa 50 anos.

Nas Letras

Quando o Sol deita
e meu futuro se põe a caminhar,
tenho doces sonhos
com um mundo de índole verdadeira
que uma só palavra
terá o poder de mudar.

Arthur Dantas

sábado, 12 de setembro de 2009

diário

23 de agosto de 2009

Eu acho ridículo essa estória de diários. É até vergonhoso um cara de 23 anos como eu escrevendo diários. Mas me disseram que o papel são os melhores ouvidos que você poderá encontrar em todo o mundo. E o engraçado é que estou escrevendo como se estivesse falando para alguém. É ridículo mesmo. Deixa isso pra lá.

Bom... a questão é o seguinte. Hoje é meu aniversário e eu deveria estar comemorando uma hora dessas, mas não tenho o porquê e nem com quem comemorar. Então me sentei aqui, queria que alguém me ouvisse, ou pelo menos falar, eu queria pelo menos falar. Eu não sei onde estão meus amigos, eles sumiram de repente. Não sei onde estão. Ainda mantenho contato com alguns. Isso me magoa porque sempre fui muito ligado aos meus amigos. Hoje é meu aniversário e apenas um deles lembrou e me ligou. Os outros devem estar ocupados estudando e trabalhando. Não tenho raiva deles. Só sinto a falta deles.

Que coisa idiota um cara de 23 anos desabafando com um diário. Na verdade eu só estou fazendo isso porque eu preciso treinar minha redação para concursos. É uma tática, mesmo a produção sendo livre, é uma boa tática.

Cansei disso. Vou ler. Dormir. Esquecer que hoje é meu aniversário, assim como os outros também esqueceram.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Veneza


O vento nórtico sopra.
É dia, mas tem gosto de noite enluarada.
Os canais de Veneza acordam
E o dia chove, provocando uma enchurrada

O rosto gélido da Lua
Acaricia o hídrico penar
E a maré nasceu nesse dia.
Leves ondas
Já jorravam nas janelas das almas aflitas
Seguindo caminhos fincados pelo tempo

A Lua caminhante do dia
Chorava a beleza
Da inundação...

Ela precisa estar mais perto.
Ela se perdeu da noite
E a quer mais perto.

03 de Setembro de 2009

sábado, 29 de agosto de 2009

Último romance

Era lindo. Estavam deitados na grama. Segurando nas mãos um do outro e cantarolando a música que embalou cada momento que estiveram juntos. E as nuvens fizeram-se de algodão naquele momento. Era lindo. Olhavam-se perdendo na alma um do outro, decifrando-se, lendo futuros. Era lindo. Eram deuses. O céu correu todo em um minuto, manhã, tarde e noite. E agora estavam felizes, conhecendo estrelas. Juntos. Era lindo. O céu correu de novo e foi perdendo a cor. Foram desaparecendo, como agora sabia que havia acontecido de verdade. Ficou embaçado e ele acordou. Era lindo, mas era um sonho. E do seu lado nada havia, não havia ninguém. Só a saudade. E algumas lágrimas.

domingo, 23 de agosto de 2009

demo

Estava com o segundo comprimido na mão, prendia-o com força entre os dedos para que ele não escapasse, não queria perder nenhum, queria engolir todos, queria senti-los estufando no estomago e os elementos químicos entrando na corrente sanguínea. Não sabia bem como era, mas queria sentir o cérebro tendo câimbras, se contraindo de cólicas, queria ver as geniais idéias morrerem uma a uma, queria ver as lembranças passarem todas de uma vez, como um monte de fotos coladas em um pano branco. Queria sentir o coração perder fôlego, sufocar. Queria sentir as veias entupindo, a boca se vestir de um amargor químico. Queria ver o escuro das vistas aparecerem. Queria morrer. Sim. Queria morrer.

Tinha uma cartela inteira de comprimidos do irmão que os tomava por um problema de saúde que havia tido no ano anterior. Era noite. Todos dormiam e parecia que a casa era inteiramente dele naquele momento. A vontade, que tanto tinha, de estar sozinho se fazia real naquele momento. Por instantes se deteve pra poder sentir melhor o gostinho de liberdade. Mas não estava liberto, todos estavam ali, dormindo.

Pôs o segundo comprimido na boca, hesitou por um instante, pegou o copo com água para engolir o comprimido, nunca conseguiu engolir comprimidos sem água, eles sempre se desfaziam antes na sua boca e liberavam o gosto amargo. Por menores que fossem nunca os conseguiu engolir em seco.

Quando o copo estava quase alcançado seus belos lábios que pareciam desenhados à mão, sua mãe entrou na cozinha e ele pulou para trás de susto.

- O que está fazendo?
- Nada – tentava esconder o comprimido, relativamente grande, debaixo da língua.
- Você está tomando os comprimidos do seu irmão? Você está tentando se matar?

A mãe já estava de olhos marejados. Já fazia algum tempo que eles sempre estavam assim. Não conseguia parar de chorar.
Ela o abraçou e implorou que ele não fizesse isso, enquanto lembrava da tarde anterior, quando o filho teve uma crise e gritou inúmeras vezes que queria morrer...

- Chega, mãe. Eu cansei de ser o filho perfeito, eu quero errar, merda! Eu quero cometer erros, eu quero aprender errando.
- Você não sabe o que está dizendo, meu filho. Errar não é bom.
- EU QUERO MORRER!

...Ela lembrava, enquanto ele congelava o rosto, não queria chorar.

- Não vou me matar, mãe. Vou continuar vivendo parasitamente, miseravelmente.

Essa foi a primeira das muitas vezes que ele mentiu e conseguiu se enganar, porque naquele momento, ele realmente acreditou que não queria mais morrer.

Parecia que sua vida inteira não passava de uma versão demonstrativa daquelas que são totalmente limitadas.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

03:38 am


São olhos

Olhos que cristalizam amargores
e depois os liquefazem.

E aqui estão novamente os demônios
Se posicionando em meus lábios

São dores espantadas
São Esmeraldas polidas
E lavadas em água salobra

É silêncio de céu limpo
É clareza de lua cheia
É sabedoria de noite
É poesia que me embala,
Me nina,
Me beija e me põe pra dormir
Calmamente como o oceano que
Nasceu e cresceu e que, temporariamente,
Repousa tranquilo em minha mente.

Arthur Dantas 14/agosto/2009

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Falta à força


Cego meus olhos
Corto minha língua, pés e mãos
Furo os ouvidos, os estraçalho
Até não servirem mais

Mas falta a força!

Antes de tantos extremos
De loucura
Corto as veias, costuro como teias
E as penduro na parede...
Só pensamento

Pois falta a força!

Ainda antes disso
Me posiciono na frente de um abismo
E ouço meus demônios:
- Ande, Sinta o sabor do pulo! Seja você sendo um de Nós.

Faltou a força!

Então quis:
Cegar meus olhos
Cortar minha língua, pés e mãos
Furar e estourar os ouvidos, estraçalha-los
Até não servirem mais

Mas falta à força, sou um fraco
Nunca saberei como poderia ter sido voar!

06/julho/2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Maré

"Do teu intimismo poético para o meu..."

(re)leio, (re)leio, (re)leio...

Me vejo,
Mas não me creio em meio a seus mundos invertidos,
Apenas acho que sou eu
E imploro pra que me salve de enganos.

Se for preciso eu transformo, reinvento e centrifugo todas as palavras,
E ideias e coisas do mundo que eu puder.

Se for preciso, roubarei o oceano e o implantarei em minhas retinas
Só pra ser, se não o quase tudo, o tudo de seus versos!

"Nós somos acidentes a espera de acontecer-mos"*

*Música: There There
Artista: Radiohead

4/agosto/2009

terça-feira, 28 de julho de 2009

Elegia nº4

Dizem que meu rosto se transforma
E vira o mais belo do mundo
Quando as nuvens se juntam
E chovem de dentro pra fora de meus olhos.
Se soubessem o quanto dói ser tão belo assim,
Ninguém amaria minha chuva.
Mas Narciso(s) não se aguentam
Quando bate a falta da beleza,
Se jogam nas nuvens, esperneiam, lembram,
Até que as gotas correm novamente
E se afogam em seus belos olhos-mar.

Eu tambem me disse que sou o
Mais belo quando me entristeço.
Mas cansei de ser,
Não quero mais chover,
Não quero me jogar em meus lagos...
Eu não quero mais morrer!
Não desse jeito.

sábado, 11 de julho de 2009

Ator

Porque TUDO está dentro.
Palavras, raízes,
Vazios concêntricos
E os rabiscos mal feitos das matrizes

Cartesianamente preciso
As vistas de todos.
Mas por dentro é meio roído
Pelos vermes do real torto

E as palavras são incapazes,
Fogem da minha mente
Como cães ferozes
A perseguirem o eu latente

Presente nos lábios do mundo
Que me creem a perfeição
Que me capacitam de tudo
Sem que eu seja capaz dessa tal atuação.

Minto! Fingir eu sei bem.
Aprendi desde menino
A ser o que querem sem nem
Pensar em lutar como um paladino.

Tento ser o que minha cabeça
Não pode colocar no papel
Talvez não compensa
Expor pensamentos meus.

Se sempre vão esperar
Palavras da boca de alguém
Que não sabe falar
E que talvez nem enxergue bem

Querer que um coração
Só bata em notas perfeitas,
A beleza está na disposição
Em uma melodia mal feita

Em um palco de risos,
Aplausos e tomates,
Vivo meu pão e circo
Nas anginas dos arrastes

Da Década perdida
Permaneceu escondida
A dor que a mim falaste.

19/11/2008

Esse vai especialmente para Cecília, amiga poeta de grandeza infinita!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

*

O tempo derrete-me

Me trasnformando em água

Fazendo-me não ter cheiro,

Nem cor,

Nem sabor,

Nem forma...

O tempo cala meu silêncio.

sábado, 6 de junho de 2009

Mestre

É branco
É negro

Pequenino como uma vida feliz
E gigantesco como um segundo triste

Injusto como um final
E esperado como um começo

Sem meio
só meios

Ou é começo ou é fim...

Nada de metades...

É espaço...

É deus,
é mortal

É fênix, queima-se nas próprias chamas,
Vira gotas de fogo no céu, derrete-se e...

Renova-se!

É tudo, é tato, é tanto que é até o nada.
 
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