sábado, 16 de outubro de 2010

Adão

Ele procurou um lugar em silêncio. Foi para baixo da ponte que dava acesso a saída da cidade. Não era tranqüilo, mas tranqüilidade sempre lhe lembrou morte. O barulho dos carros em cima da sua cabeça poderia fazer o mesmo, mas pelo menos não era silêncio. Ele quis, ele quis ter alguém e por um tempo ele conseguiu. Não um namorado, mas amigos foram suficientes. Eram suficientes como o vento, eram suficientes como falar, eram suficientes como a suficiência, o querer de algo achando que ele é necessário. Eram assim, um achismo de necessidade.
Pensou na faculdade, nos alunos e na sua mãe. Pensou em amá-la, mas não conseguia. Pensou no pai e no irmão, nada de amor ali. Pensou nos amigos e sentiu um frio, como um cubo de gelo dentro do pulmão. Um frio que caia, caia, caia e suspirava. O frio suspirava, estava vivo dentro dele. Nem chegava a ser um vazio. Era um frio mesmo, um espaço grande, mas gelado dentro dele.
Pensou em Deus. Pensou em como queria que ele estivesse ali, aparecesse tão de repente e dissesse que nada era verdade. Que sentir-se sozinho é ilusão (já ouviu isso dos amigos, mas não havia amor nos amigos, não conseguiu acreditar). Quis ver o rosto de Deus, quis ver que ele tinha espinhas, que tinha o rosto queimado do sol e que tinha os cabelos quebrados. Quis ver as mãos de Deus, com calos e com unhas mal-feitas. Mas lembrou que não acreditava nele e sabia que nada do que ele não acreditava existia, como o amor.
Pensou no que o fazia se ligar aos outros. Pensou em algo que pudesse acreditar e pensou que o que ele podia acreditar seria o amor. Então pensou onde encontrar, pensou nos amigos e na família. Na forma como aquelas pessoas estavam dispostas ao seu redor, como num jogo de damas, cada um em uma base, dois não podiam ficar na mesma. Existia um limite, entre quem é de uma cor e quem é de outra. Era assim, um limite entre tudo. Entre ele e a família, limite entre ele e os amigos e entre ele e o resto, porque ninguém era como ele. Nem Deus era, então também não existia amor em Deus.
Como amar alguém que não é uma parte de você? Como amar alguém que está para além dos seus limites e que não pode cruzá-los? Como amar alguém que não pode esticar os braços e te abraçar, porque não pode sair de sua zona.
Percebeu que não havia amor em nada ali. Percebeu que estava em sua base e ela impunha um limite e uma condição, nada de amor. Foi quando percebeu que os olhares carinhosos que sua mãe lhe lançava nada mais era do que vontade, vontade do amor dele. O pai, percebeu que não era tão mal assim, ele queria amá-lo e o irmão também. Mas era só vontade, amor ali não podia existir. Não se pode amar alguém que não consegue ultrapassar seus limites e ser uma parte de você, é como um quebra-cabeças, sabe? Falta sempre uma parte, não que ela seja necessária, é necessária como o mesmo achismo necessário. É só uma falta e um limite. Percebeu que era só isso.

5 nós:

luiz disse...

nossa, é muito triste esse texto, mas viu, relaxa, ame a todos, mesmo q não seja reciproco : )

Arsênico disse...

Ninguém merece atravessar toda uma vida sem acreditar em algo que possa se segurar!!! [Frase do seriado "Glee"]

Precisamos tentar... pelo menos!


***

;D

FOXX disse...

acho q já li esse texto não?

Antonio de Castro disse...

toda essa historia de deus... não adianta dizer nada. cada um tem sua fé em algo de alguma maneira.

mas isso do amor. será q esses limites não podem ser ultrapassados mesmo? será q a mãe dele não faz parte dele? a gte se ilude tnt.

Somniator disse...

"...uma falta e um limite"

Isso me descreve bem: Sinto uma falta constante. E um limite não me permite preenche-la. A triste questão é que passo a perceber que sou eu esse limite. Meus desejos estão guardados atrás de um muro de vidro.