terça-feira, 7 de dezembro de 2010

caçador


Tropecei e desci a rua rolando. Ralei pé cabeça braço direito calcanhar direito bunda. O sangue ficou no chão e eu sabia que ele sentia o cheiro de sangue. Não ouvia, não via, sentia cheiro. Ele pulou de cima do prédio no começo da rua. Levantou a cabeça para a direita e eu consegui ver as narinas dele se contraindo e me farejando. Colocou as mãos no chão e tomou pose de animal. Gemia baixo, grunhia. A rua só tinha uma saída, um beco onde só cabia alguém que tivesse a metade do meu corpo. Eu via azul, azulado, branco e muito preto. Eu respirava quente, transpirava frio. Ele chegou até a primeira poça do meu sangue e lambeu. Eu percebi que ele gostava da caçada e queria que eu fugisse mais. Eu queria me entregar e acabar com tudo, queria ver aquele sorriso plástico teatral manchado de sangue, eu queria vê-lo rindo. Ia agüentar ele começando a me comer pelas pernas, depois os dedos das mãos, um por um, como se fossem pés de galinha. Comendo meus músculos com vontade, chupando o sangue que escorria pela parte do meu corpo que ainda estivesse inteira. Devoraria o resto da minha perna e me deixaria com a outra inteira para rastejar e deixar aquilo um pouco mais prazeroso. E eu, só com uma perna, corri pelo beco pequeno, a outra metade do corpo que me sobraria ali entre as paredes eu ofertei a ele. Ele conseguia passar com facilidade ali. Diminuía o corpo até parecer uma cobra, rastejando pela parede, como uma lagartixa. Pulava de uma parede para outra como uma aranha. Me amarrava nas teias e me via debater, eu jurava poder ouvir risadas. Ele pulou da parede, voou por cima de mim e caiu na minha frente. Fazia movimentos estranhos com a cabeça, como se não tivesse ossos para sustentá-la. Tinha roupas velhas, tiradas de grandes baús, manchadas de sangue de outro, alguém que como eu fugiu, mas se entregou rápido e que talvez tenha sobrado um pedaço, perto de onde eu estava. Azul, azulado, branco e frio. As escamas nas mãos roçavam umas nas outras e faziam um barulho estranho, ferrões em cima das sobrancelhas (não tinha olhos, mas tinha sobrancelhas), a cauda. Essas partes animais do corpo dele se mexiam. Sozinhas. E parecia que cada uma delas já havia escolhido uma parte do meu corpo para destroçar. Voava ao meu redor, expunha os dentes afiados e mergulhava em mim, cada vez levava algo mais.