quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Cartas de Adão (1)

Natal, 19 de Outubro de 2011

Querido, (não sei do que te chamar)

            Poderia me explicar, mais uma vez, o motivo pelo qual prefere se comunicar comigo através de cartas? Não entendo essa de “Quero guardar você e suas palavras em suas palavras”. Graças a isso me obrigo a escrever à mão todas as cartas que envio para você e sabe muito bem o quão pesado isso é para mim. Sabe da dificuldade que tenho com elas (as palavras), apesar de ser poeta. Sabe que sangro sempre, e sangro muito, toda vez que seguro uma caneta. Aceitaria bem mais se você me falasse que gosta das minhas palavras e das minhas hemorragias.
            Eu tenho premonições, você sabe, e essa noite sonhei com você, mais uma vez. Sonhei que teria, a partir de hoje, quatro dias insanos de pura entrega em uma sala com duas portas, ao seu lado. Você consegue realizar quão insano é essa vontade? Lembra que só nos vimos uma única vez, há três anos? E que desde lá eu sou pura redenção a você? Claro que sim! Perceba, agora, o quanto somos incoerentes: moramos na mesma porra de cidade e só nos comunicamos por carta. Você me diz que sente medo ao discar meu número (e nem sei como você tem meu número). Você é amigo de todos os meus amigos, inclusive os que moram comigo, mas só me visita quando eu não estou em casa. E toda vez que volto, sinto o que acho ser seu cheiro no meu travesseiro, por três dias seguidos. Sabe que isso é meio sádico? Eu sei que você sabe. Mas não entendo, e insisto nisso: diga-me, mais uma vez, qual a razão de você não querer se encontrar comigo? O mesmo ônibus que passa aqui na porta, para na esquina da sua rua. Só me dê um sinal, e eu realizo esses quatro dias de entrega que sonhei, a partir de hoje.
            Mas eu falava das premonições. A partir desses quatro dias, você seria meu por um mês completo. Apenas meu e tudo seria descoberta entre eu, você e a cama. Você alargaria meu mundo de uma forma que jamais pensei. Eu, você e a Coca-Cola no café da manhã. Mas a partir daí, você me falaria da dificuldade em me amar. Em uma noite bem quente, na casa de amigos, em mais uma de nossas luas-de-mel sem casamento, você me diria adeus como amor, e olá como amigo. E então eu teria sonhos suados com você e seu abraço, sempre interrompido. Era sempre uma morte, um assalto demorado, mas nós nunca conseguiríamos realizar um toque novamente. Mas, por um mês completo, você seria meu. Seja meu.
            Desculpe, mas já derramei sangue o suficiente. Espero que seja o bastante para saciar sua vontade, anyway.
            Eu te beijo, longamente, eu te sonho, densamente. Eu sou seu, se quiser, por um mês inteiro.

Adão.

transcendentalismo fútil

pensar, com glória, em ser
amante carnal do vento
que sobra das colisões com
os grandes prédios

essa curta vida em
movimento

com glória, virar ar para
um bom homem
ser para a cidade um tornado
violento

tornados do sol multicor

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Os memes e a "cultura"

          Hoje pela manhã me surpreendi ao ver a história do “Menos Luisa, que está no Canadá” tendo destaque no jornal matutino Bom dia, Brasil, da rede Globo, que foi caracterizado como um fenômeno virtual chamado meme. Quase todas as chamadas incluiam o bordão em suas manchetes.
           Mas o que eu acho que mais me surpreendeu, foi a pergunta que me veio a mente logo depois: e porque não?
          A “reportagem” explicava que o termo meme vem do grego (mimeme) e designa, genericamente, a repetição de um comportamento específico por um grupo de pessoas. Com o avanço das comunicações e da vida virtual, esse tipo de comportamento tornou-se mais comum. Pois bem, a estudiosa (do que não me lembro agora) explicou que o mais interessante é que esse tipo de ação é capaz de gerar cultura. Daí eu já me imaginei em discussões calorosas com alguns amigos sobre como “a cultura hoje em dia é uma merda, se uma porra de um meme é considerado cultura. Como colocar isso ao lado de pintura, literatura, moda, fotografia...”.
          Então eu resolvi pensar melhor. Se a cultura é qualquer tipo de produção humana que designa e representa o homem e a sociedade em que ele vive, não necessariamente como uma imitação (deixando claro que essa concepção de cultura é minha, não a peguei em nenhum livro), porque, então, seria difícil de acreditar que os memes e outros tipos de produção virtual não podem ser considerados cultura? E aí me vem a grande e velha discussão de que “cultura é arte de alta qualidade” e porra e tal. Mas lembremos que, hoje considerados arte, hip-hop, grafite, e outros tipos de manifestações artísticas não eram considerados antes.
          O que me parece é que ainda existe muito pré-conceito (sim, assim mesmo), daqueles, do mesmo nível, que muitos de nossos pais nos jogam na cara, como um “homem nasceu pra mulher e não para outro homem”. São as amarras que nos prendem ao passado e suas formas de ver e ser a sociedade.
           Os memes podem ser, sim, um reflexo da produção cultural de nossa época e eles cumprem muito bem o papel de refletir a sociedade copiadora, onde o mais importante é estar na “boca do povo”, não importa se por originalidade ou por seguir uma onda. Muita gente prega o triunfo de uma sociedade altamente imagética, dominada por imagens que se repetem se intercalam e se incorporam. Os memes podem fazer parte dessa ação-não reação.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

café ruim

As noites de fim de semana aqui são bem mais amargas do que o meu café ruim. E nem é por solidão, pura e simples. A casa está sempre cheia de amigos. Amigos dormindo, amigos no bar da esquina, amigos na outra ponta da cidade.
            E é assim. Não existe um só motivo para acreditar que essa vida é uma merda. Está tudo na mais perfeita ordem. A não ser que, justamente, Isso seja A merda.
            Daí eu puxo uma cadeira para frente da janela, fico olhando as luzes acenderem e apagarem nos prédios vizinhos, nos carros que passam. Fico vendo as pessoas passarem na rua, mesmo não estando mais em horário de ônibus. Não sei.
            Eu fico enxergando essa maliciosa ordem cósmica urbana. E, sei lá, como é possível viver aqui? Como ser feliz? E onde mais se viveria? “Aqui ninguém vai pro céu”. E o céu é meio laranja. Meio vomitado, ácido. Concreto demais. Onde é que eu posso esconder os sonhos por aqui? Tem mofo demais aí por fora...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

disritmia

ele nem sabe como dizer o que sente
       essa outra parte de mim
mas sabe que se fosse caminhando daqui até o caminho do mar
furaria os pés nos cacos quentes do sol

tem pessoas nas ruas dizendo que ele é louco
mas é fácil de encontrá-lo
passa o dia inteiro rodando de ônibus pela cidade
lendo poesia com um olho
    e com o outro contando os carros quebrados
os acidentes

as pessoas simples

hoje

É estranho estar do outro lado e não é nada confortável, como eu sempre maldisse que era. O tempo passa e você aprende a respeitar as andanças malfeitas do mundo. Não são escolhas. São imposições cósmicas. Só pra sentir menos peso, a gente acredita.

dois versos

Assovie na parada, pegue o ônibus pra Lua espere uma volta
completa e me encontre lá também, sozinho, comendo estrelas






(Para @anaguas_ e @oldtricks)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

de um sonho que tive quando sabia que isso não era mais um fato

apareça aqui, você que eu quis chamar de amor
venha trazido pela música

não importa o barulho mortal da cidade
eu espero você em versos alheios

pitoresco
com armações de metal nas janelas de casa
eu pendurei vários corpos
fiz uma árvore linda de órgãos
desde sempre eu soube
        que você queria seu amor com morte
e vários punhais de prata
prontos pra sacrifícios lunares

aqui
eu comprei um coração sadio para você comer
e deixar o meu
não o destrua
     me deixe acabar comigo sozinho
eu sei do mar que existe ali perto
eu sei me afogar
só espero ser capaz de me matar sob seu olhar